Estava
procurando no meu baú um assunto que fosse interessante, algo
que demonstrasse versatilidade na fotografia, não queria
apontar grandes nomes, mas alguém que estivesse próximo
da nossa realidade.
Falar
dos “MASTERS OF PHOTOGRAPHY”, seria algo como que vindo
da imaginação e um pouco fora do nosso brasileirismo.
Após
alguns dias de busca, achei um camarada muito legal, uma pessoa
desprovida de qualquer forma de atitudes ou pensamentos nocivos à
profissão, um sujeito parceiro e sempre disposto a ajudar os
colegas quando solicitado.
O
fotógrafo profissional brasileiro precisa ser um camaleão,
fazer um pouco de tudo para sobreviver e Mário Castello é
um destes profissionais.
Há
alguns anos conheci Mário Castello através de um grande
amigo fotógrafo e outra grande amizade também começou.
A admiração do trabalho de um e do outro foi recíproca
e daí em diante sempre estamos trocando informações
e mostrando o que fizemos ultimamente. Esta relação
entre fotógrafos, sejam eles profissionais ou amadores, é
de extrema importância e a troca de informações é
muito importante.
O
que é ser fotógrafo? Independente de ser profissional
ou não, esta é uma pergunta que sempre me fiz e cheguei
a seguinte conclusão: Ou a gente nasce com uma câmera
pendurada no pescoço ou em determinado momento de nossa vida a
fotografia passa a ser parte da alma da gente.
Castello
é uma dessas pessoas, a qualquer momento que o encontramos ele
está com uma bolsa pendurada no ombro, hora com a Leica e
filme preto e branco, hora com a D200 ou a D70 e sempre disposto a
clicar algo interessante, um retrato, uma cena ou qualquer outra
coisa boa de ser clicada. Este é o verdadeiro fotógrafo,
é movido pela vontade, curiosidade e interesse de clicar.
A
busca pela qualidade e aperfeiçoamento de sua fotografia faz
com que Castello utilize equipamento adequado as suas necessidades.
Quando o conheci, (antes das digitais chegarem ao mercado), Castello
usava duas Leicas com objetivas de 35/50/135 mm, depois de
vendê-las, comprou uma D70 com algumas objetivas Nikon. Quando
surgiram alguns trabalhos de arquitetura para a “Camargo
Correa”, ele adquiriu uma Hasselblad com objetivas angulares e
clicou belíssimas fotos de arquitetura e assim por diante.
Castello me mostrou algumas fotos e falou do prazer em fotografar com
Hassel, a qualidade das imagens, o enquadramento no formato quadrado
(6x6cm), muitas vezes necessário na fotografia de arquitetura.
Em
outros trabalhos encomendados pelo “Sesi, Alpargatas, cobertura
de eventos e outros”, ele clica com D70 e D200 para atender a
demanda de seus clientes, mas não resistindo à tentação
voltou a utilizar Leica em suas incursões pessoais.
Perguntei
ao amigo:
- Porque Leica e filme depois de tanto tempo no digital?
- Saudades do filme! Respondeu.
O resultado das fotos de paisagem
fica melhor em filme, as nuvens não ficam estouradas e como um
bom e velho “Leica maníaco”, a qualidade das
objetivas “Summicron” e mais, de tanto clicar em digital
a gente precisa retornar ao filme para sentir melhor o gosto de
fotografar, aguardar o resultado da revelação, fazer um
print manual, ir ao laboratório, rever amigos e outras coisas
mais.
Então...
Este é o verdadeiro fotógrafo! Tem toda a tecnologia
presente, mas sente a necessidade de voltar ao passado para resgatar
uma nova motivação na sua fotografia. Compreendo sua
atitude, pois pertencemos a uma mesma escola dos fotógrafos
mais antigos, quando fazíamos “Ektachromes” e ao
ver o resultado após duas horas de espera, era um verdadeiro
regozijo.
Castello
está sempre viajando a trabalho, seja para Brasília,
Porto Alegre ou para São Bento do Sapucaí, já
viajou pela Europa, de onde trouxe em sua bagagem belíssimos
registros fotográficos. Confesso ser um admirador das
fotografias do meu amigo Castello, toda semana ele me apresenta novas
imagens clicadas com verdadeiro carinho, mas o que mais me encanta é
a coleção de fotografias da filha “Gabi”,
desde criança até os dias de hoje na sua adolescência,
são belíssimas imagens de um pai fotógrafo e
carinhoso.
Em
um dos meus encontros com Castello, resolvi fazer uma pequena
entrevista para que ele me desse mais detalhes da sua vida
profissional e aí está o resultado.
Castello,
onde e quando você nasceu?
R: Sou natural de São Paulo – capital e nascido em 05/11/1958, ano do primeiro título mundial do Brasil, da bossa
nova, da construção de Brasília... Uma boa
época... Anos de romantismo.
Onde,
quando e de que maneira você iniciou na fotografia?
R: Aos 10 anos de idade ganhei da minha tia Dirce uma câmera
KAPSA, que usava filmes no formato 120 e a tenho guardada até
hoje em meu acervo. Naquela época tomei gosto pela fotografia
vendo minhas fotos de criança, que meu primo Carlos, fotógrafo
profissional, fazia com sua Rolleiflex.
Nos
anos 70, já empolgado e curioso com a fotografia, pedi a minha
tia que me emprestasse uma Olimpus Pen que ela guardava com muito
carinho e fiz uma viagem pelo Litoral Norte, fotografando tudo que
achava interessante. Este foi o início do aprendizado.
Em
1978 comecei a trabalhar na Secretaria Municipal da cultura, no
IDART, na área administrativa, na época era um
departamento que documentava os eventos culturais da cidade,
exposições em grandes museus, teatro, dança e
outros. Localizado no centro velho de São Paulo, no Solar da
Marquesa de Santos. Da área administrativa pulei para o setor
que cuidava do acervo e conheci o grande restaurador e uma sumidade
em preservação de imagens, João Sócrates
de Oliveira.
João
restaurou na época, todo o acervo do fotógrafo Militão
de Azevedo e os filmes da Cinemateca Brasileira entre outros
trabalhos e me mostrou como montar um pequeno laboratório
fotográfico. Através dele conheci o ampliador Focomat,
da Leica, que depois de alguns anos o adquiri na Cinótica, de
Mario Arroyo que também me incentivou muito na fotografia.
Em
1981, o IDART se transferiu para a Casa das Retortas e eu para o
setor de fotografia, me tornando assim um dos profissionais do
departamento. Trabalhava ainda como aprendiz, mas já era autor
de algumas imagens de qualidade.
Em
seguida o IDART se transformou no Centro Cultural São Paulo e
o Arquiteto Ricardo Ohtake assumiu a diretoria. Fiz um ensaio
fotográfico do projeto dos Arquitetos Eurico Prado e Luis
Telles e mostrei ao Ricardo que gostou e me designou para o trabalho
dos “60 anos da Semana da Arte Moderna”. Fotografei o
Teatro Municipal para um folder, meu primeiro trabalho publicado e
fotografado com uma Nikon F3 do departamento e objetivas 35 e 85 mm
F2.0, Kodak Ektachrome 64 ASA e Kodak Tri X.
Qual
equipamento você possuía na época, até
quando e para quem trabalhou?
R: Em 1983
minha outra tia Lourdes, vendo minha paixão pela fotografia me
presenteou com uma Leica M3 e Summicron 50mm F2.0. Em seguida comprei
uma Elmar 90mm F4 e fiz muitos retratos, inclusive de minha avó,
já falecida. Minhas tias tiveram uma grande participação
em minha formação profissional.
No
antigo prédio da Rua 7 de abril, 79- 3° andar, o saudoso
Okada se instalou e mudou a história da fotografia paulista e
brasileira, comercializando equipamentos novos e semi-novos a preços
justos. Tenho certeza que, grandes nomes da fotografia brasileira
passaram por sua loja. Foi lá que comprei uma Nikon FT3 com
objetiva 28mm F3.5 e uma 105mm F2.5, que considero uma das melhores
objetivas feitas pela Nikon.
Já
em 1985, equipado com uma Nikon FM e uma F2A, comecei a fotografar
como free lancer para a SAGE, uma empresa americana que elaborava
Áudio Visual para grandes empresas. Viajando pelo Brasil
aprendi muito, pois produzi imagens em mais de 500 indústrias,
siderúrgicas, farmacêuticas e até florestais. Em
1986 sai do Centro Cultural SP e fiquei trabalhando como free lancer
para a SAGE, Agencia do Estado, Isto É Senhor, Exame, Veja SP
e Hippus, onde conheci o empresário que se tornou um amigo,
Sérgio Murad o BETO CARREIRO.
Da
amizade nasceu a oportunidade de fazer a legendária foto do
cavalo empinando, que se tornou sua marca em todos os lugares. Na TV,
vinha acompanhada de um raio e som característico. Beto me
disse na época, que foi sua melhor foto empinando o famoso
cavalo Faísca.
Em
1989 fiz um ensaio do Memorial da América Latina, para a
Revista Classe da TAM. Levei as fotografias para a diretora e grande
fotógrafa Maureen Bisiliat, que editava o livro do Memorial da
América Latina com os fotógrafos Cristiano Mascaro,
Andréas Heininger e Calazans (falecido em 2007). Maureen me
pediu que fotografasse 5 áreas que faltavam para a finalização
do livro e no final, ganhei a capa com a foto que uso até hoje
em meu cartão de visita. Gosto muito do grafismo e da cor,
essa foto foi feita com uma Nikon FM e objetiva 35mm F2.8 e filme
Kodak Ectachrome.
No
mesmo ano, viajei de helicóptero pelo estado de São
Paulo fotografando os CATS, Centro de Atividades do SESI/SP, também
usando a velha Nikon FM.
Minha
maior alegria e felicidade foi em 1991, quando ganhei um presente
muito especial, minha filha Gabriela, que comecei fotografando no
parto e fotografo até os dias de hoje. Ela tem sido minha
principal modelo, especialmente quando vou à Serra da
Mantiqueira onde ela mora e sempre renovo meu acervo!
Nesses
anos, fotografando para o SESI, tive a oportunidade de voar de balão
e fotografar, assim como também participei do livro Teatro do
Sesi 40 anos, com fotos de peças realizadas no legendário
teatro.
Quais
os seus clientes atualmente?
R: Atualmente
tenho alguns clientes fiéis como a Camargo Corrêa,
Alpargatas, CNI, Fiesp, Sesi, Senai, Escritório de arquitetura
Athie Wonhrat e outros. Sou voluntário da APAE SP e da WCF
Brasil, fundada pela rainha Silvia da Suécia, que combate o
abuso contra crianças e adolescentes.
O
que você mais gosta de fotografar?
R: Profissionalmente...
Arquitetura, industria, meio ambiente e passando pelo retrato.
Trabalhos
pessoais... Gosto de clicar paisagens, cidades, fotos de rua e
crônicas visuais de locais visitados.
Qual
o seu equipamento atual?
R: Atualmente
tenho 3 Nikon: F601 / D70 / D200 com objetivas AF 14 – 18/35 –
35/70 – Micro AF – 85 – 70/210mm (todas Nikon).
Leica
M4-2 com objetivas 35 – 50 – 135mm.
Hasselblad
500 CM e SWC com objetivas 38 – 50 – 60 – 100 –
120 – 250.
Rolleiflex
Tessar F3.5.
Nikonos
Digital
Lumix com objetiva Leica que levo no bolso.
Qual
a sua opinião entre digital e película?
R: O
digital veio para dar ao fotógrafo agilidade e maior
possibilidade no controle técnico de sua obra. É
incrível fotografar e poder mexer na estrutura da foto através
de uma tela de computador. Veja o exemplo da arquitetura, no passado
usávamos a báscula das 4x5 para correção
da perspectiva e hoje trabalhamos essa correção
eletronicamente. Antes fazíamos um pré-ajuste na câmera
e agora um pós-ajuste no photoshop.
A
fotografia digital, a cada dia se torna mais precisa, a Hasselblad
lançou a H3DII de 50 Mp e as Nikon e Cânon também
são equipamentos de ponta.
Prefiro
Nikon, pela possibilidade de uso das antigas objetivas e por sua
durabilidade. Tenho uma D70 desde 2004 e continua firme e forte. Em
minha opinião, os tons de pele obtidos com a Nikon, são
mais naturais.
Para
as fotografias em p&b, apesar do uso da digital ainda prefiro a
película, pela textura e a melhor reprodução dos
brancos em altas luzes.
Não
tenho preferência pela fotografia colorida ou p&b, cada
qual com sua linguagem. Ultimamente em minhas viagens tenho preferido
o p&b, pela maneira de mostrar a realidade e o mundo de uma forma
única. As nuances de tonalidades de cinza, aliados ao preto e
branco podem proporcionar belíssimas imagens
Acho
que a película tem alma, é real. Podemos tocar no seu
suporte, o negativo ou diapositivo tem química, utiliza água,
que compõe todos os seres vivos.
O
digital tem definição, cor, controle, inúmeras
possibilidades de manipulação, controle sobre os
gastos, enfim... Uma arte eletrônica.
Cabe
ao fotógrafo escolher e transitar nas duas linguagens, tirando
o máximo proveito para seu trabalho, enquanto existirem e não
forem criadas outras formas de ver o mundo.
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Quando
escolhi Mario Castello para este artigo, o fiz por conhecer sua
objetividade e naturalidade ao falar de fotografia. O que mais eu
poderia dizer ou explicar.
Se
uma foto vale mais que mil palavras, comentar suas fotos aqui
apresentadas seria bobagem, convido vocês a conhecerem o
trabalho de um grande fotógrafo.
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