Desde
a minha adolescência tive a oportunidade de acompanhar as
grandes lutas dos campeões de boxe, tanto no Brasil como no
exterior. Clay, Foreman, tyson, Eder Jofre o nosso “Galo de
Ouro” porque era peso galo e muitos outros. Alguns pela TV,
outros pelos filmes e outros ao vivo e a cores, mas em nenhum momento
fui seduzido a fotografar esses atletas e seus combates.
Estranha
é a vida...como as coisas se apresentam para nós !
Já
fazem alguns anos que havia perdido o interesse pelo boxe como
esporte, ouvia falar, alguns comentários aqui e ali e não
passava disso. A câmera continuava guardada em se tratando de
boxe !
Sempre
admirei aquelas fotografias preto e branco de boxe, dos anos 50, o
verdadeiro fotojornalismo, todas feitas com maquinas de chapa, a
velha SpeedGraphyc e o flash grudado na lateral, uma única
flashada e a foto saia fantástica, o exato momento e depois
publicada nas páginas dos jornais e revistas. Os profissionais
da época sabiam o momento exato do clic, quando o golpe
derradeiro seria dado no outro lutador, os bastidores com as
personalidades do mundo do boxe e por aí adiante.
Os
tempos foram evoluindo as novas speed câmeras foram surgindo,
do médio ao pequeno formato e a fotografia foi também
acompanhando a mudança dos tempos, os filmes expostos a altas
velocidades de ISO, as câmeras digitais speed câmeras,
flashes de alta potencia e rapidez de recarga e tudo foi ficando mais
fácil.
Fácil
??? Será que com toda esta parafernália dos tempos
modernos conseguimos ver imagens como aquelas ? Posso afirmar que
dificilmente isso acontece. Para fazer boas fotos de boxe é
preciso conhecer o assunto, os boxeadores, os treinadores, as
academias, a maneira de lutar de cada boxeador e o momento exato do
clik. Se o fotógrafo piscar, perde o momento da foto e se
perder, perdeu tudo, pois ele não se repete, terá
apenas algumas fotos do evento.
Relegado
aos confins do esquecimento está o boxe brasileiro, mesmo com
a participação de nossos grandes atletas como o único
brasileiro Campeão Olímpico Miguel de Oliveira, Eder
Jofre, Popó e outros. Nenhum incentivo de órgãos
governamentais ou privados é dado aos atletas boxeadores, nos
Estados Unidos o boxe gera milhões de dólares e no
Brasil é esquecido. É triste, mas essa é a nossa
realidade.
Em
janeiro de 2007 conheci Nilson Garrido, ex-campeão de boxe,
atualmente beirando os 50 anos. Garrido montou sua academia de boxe
debaixo do “Viaduto do Café”, no bairro da Bela
Vista. Equipado com instrumentos precários para treinar seus
lutadores, os “Guerreiros do Viaduto”. Ele e seu filho
Fábio Garrido o fazem com louvor e conseguiram formar um
campeão Sul Americano, Paulista e Brasileiro, três
títulos defendidos com garras e dentes por três atletas.
Fui
muito bem recebido pelos Garridos e seus guerreiros e encantado com a
academia, seus participantes e o clima de raça e vontade
decidi fotografar e o faço constantemente até os dias
de hoje.
Para
freqüentar a academia é grátis, qualquer um pode
iniciar ou freqüentar o boxe ou mesmo alteres. O mais
interessante de tudo é que os treinos são mantidos com
o máximo rigor e disciplina, levando os atletas aos seus
limites.
A
disciplina é importante, o projeto “Garrido Boxe”
resgata pessoas das ruas, ex presidiários, e se precisar morar
na academia debaixo do viaduto pode morar, desde que haja respeito e
disciplina, caso contrário não há segunda
chance. Os instrumentos de treino vão desde pular corda,
correr, socar os sacos de boxe, geladeiras velhas, puxar latas de
tinta de 18 litros com concreto dentro, girar uma bola de concreto de
30 kilos, tudo isso para dar força aos golpes. Outros
exercícios complementam os treinos como pequenos combates com
os campeões para sentir um pouco da força dos golpes,
aprender a malícia no ringue e por aí adiante.
Tudo
isso me encantou para fotografar, mas o que mais me chamou a atenção
foram os olhares desses boxeadores, agarrados a uma vontade de vencer
no ringue e na vida, vieram do nada, alguns do fundo do buraco, mas
estão caminhando para algum lugar, alguns chegarão,
outros não.
Comecei
a fotografar no Viaduto do Café, onde fiz retratos do Garrido,
do Jailton e do Marcelo, alguns momentos de seus treinos rudimentares
e finalmente a primeira noite de “Campeonato de Academias”.
Foi no dia 15 de fevereiro de 2007 as 20 horas, cheguei com a minha
FM2 e uma objetiva de 35mm 2.0 e 01 filme superia 400. Para minha
surpresa não havia luz suficiente para velocidades altas, eu,
macaco velho, mas estreante no boxe me senti como os boxeadores que
participavam pela primeira vez. Haviam colegas com digitais e flashes
de última geração que me olharam
estranhamente,
talvez se perguntando, quem era aquele dinossauro. Pensei comigo que
aquele momento era derradeiro e que não poderia perder nenhuma
foto e só tinha um rolo de filme. Precisava fotografar só
os momentos exatos, mas, como aconteceram muitos combates amadores,
concentrei-me em alguns retratos e no profissional, que foi uma só
disputa de título do Jack Welson, ainda Campeão
Brasileiro na época, atualmente Sul Americano.
Após
clicar as 36, fotos envolvido naquele alvoroço, no meio da
multidão, no córner do ringue, o ombro a ombro com
outros colegas, velocidade de 15 e diafragma 2.0, o empurra-empurra
daqui e dali, os gritos de sai da frente, percebi que havia feito
alguma coisa boa e que havia sobrevivido. Foi simplesmente fascinante
a minha estréia na fotografia de boxe !!!
Atualmente
carrego uma pequena bagagem na fotografia de boxe, os combates
acontecem debaixo do Viaduto Alcântara Machado, o ambiente é
surreal e proporciona belíssimas imagens. Nunca uma noite é
igual a outra, sempre aparecem novidades. Durante um desses eventos,
um amigo que estava fotografando junto comigo, de repente se revoltou
porque já havia feito dois cartões de 2G e não
agüentava mais e o evento ainda não havia chegado ao fim.
Ele me perguntou quantas fotos eu havia feito, olhei na câmera
e respondi...24 chapas, e começamos a rir. Optei algumas vezes
em alguns eventos, por usar o flash, tentar remeter minha fotografia
aos anos 50 e depois resolvi puxar meus filmes para ISO1600,
conseguindo uma granulação simpática. Fotografo
com superia 400 e faço escaneamento em Noritsu a 300 DPI e
depois viro para PB em photoshop.
Não
fotografo muito os combates, apenas alguns clics decisivos nos
Campeões, meu foco está nos retratos, nas expressões,
nas atitudes. As frases que mais ouço durante os combates são:
Não dê as costas para o adversário...mantenha a
guarda alta...fecha a guarda...jabeia...enfia um cruzado...ataca !
Sendo
pessoas com histórias de vidas difíceis, todo esse
combate e essas frases, cabem muito bem não só no
ringue como na vida, na esperança de alcançar alguma
coisa e eu fotografo esses “Guerreiros do Viaduto” que
algum dia serão campeões tanto no ringue como na vida,
o nosso mundo real do boxe brasileiro.
Para
a fotografia de boxe, é preciso praticar muito, escolher o
momento ideal, posicionamento para uma boa foto. Não adianta
chegar com uma câmera digital e cartões com muitos gigas
e fotografar tudo que vem pela frente, é preciso escolher,
perceber o momento e fazer a boa foto. As vezes, numa noite de evento
conseguiremos uma ou duas fotos boas e o resto será
descartável.
Quem
estiver interessado em fotografar boxe, o endereço é
Viaduto Alcântara Machado – Brás – São
Paulo. O ingresso é gratuito !
Itaci
Batista / Fotógrafo profissional desde 1965.